Zézito e Pedrito
Quem me conhece, sabe que nunca fui muito chegado à política. Aliás, embora não veja a abstenção como forma activa de luta, também não vejo o voto como algo muito significativo. Para mim, o voto num governo nunca foi mais do que a expressão da preferência pessoal quanto à cor do logótipo daqueles que orientam o nosso país.
Na verdade, achei sempre o meu voto completamente irrelevante e inconsequente, porquanto o resultado daí obtido seria sempre um governo PS ou PSD, facções em tudo semelhantes e, direi até, com propósitos socialmente aceitáveis e economicamente viáveis.
Um governo é formado por um grupo de profissionais, mais ou menos competentes, com mais ou menos habilidade técnica, com mais ou menos vontade de trabalhar… A meu ver, a cor da camisola que vestem nunca foi importante ou determinante, desde que se pautassem por princípios democráticos e de justiça social.
Assim, optei na maioria das vezes pela abstenção, não para marcar uma posição, nem para protestar contra o que quer que fosse, mas antes por puro comodismo e alguma resignação quanto ao caminho, mais ou menos agradável, que o nosso país teria que seguir.
É nesta altura que grande parte do eleitorado me cai em cima, reclamando falta de patriotismo, de consciência política e de mais um sem fim de coisas… Com razão, talvez… A verdade é que o dever cívico que os compele ao voto é mais um sentimento do que propriamente um raciocínio lógico, mas ainda assim admito que tenham razão, independentemente da utilidade real do voto… (isto deve ser uma figura de estilo, tipo: afirma, nega, afirma, nega… hummm, a ver…)
À margem desta dicotomia existencial que me assombra, e enquanto assisto ao debate político do ano entre o Zézito e o Pedrito, tomo consciência do quão revoltado estou com a classe política que temos! Parecem duas crianças a agredirem-se verbalmente, a defenderem-se usando argumentos absurdos e infantis, a apontarem o dedo um ao outro, a discutirem semântica, a fazerem a cronologia de eventos passados… Enfim, a falarem de tudo o que não interessa e a esquecerem aquilo que todos queremos saber: como é que vamos sair desta situação fecal em que nos encontramos?!?!
A angústia é tanta que, ironia das ironias, me sinto com vontade de me manifestar! E isto acontece, mesmo sabendo que se o tivesse feito de forma activa nos actos eleitorais passados, estaria tudo exactamente como está… Enfim, o problema agora é encontrar uma forma válida para o fazer… As hipóteses que tenho não são muitas: a abstenção, o voto em branco, o voto num partido “diferente”…
Ora, como já disse, a abstenção e mesmo o voto em branco não são para mim formas válidas de luta ou de contestação; são simplesmente actos resignados e comodistas com os quais defini a minha participação política nos últimos anos.
Resta a possibilidade de votar num partido que se distancie da demagogia e das politiquices dos “grandes”. É importante salientar aqui que não basta não ser “grande”, passe a dupla negação… Vejam-se os exemplos do Bloco de Esquerda e da CDU, cuja sanidade política e mental há muito se foi, e onde imperam os disparates e as políticas do faz-de-conta!
Ando então à procura de uma força política marginal que, pelo menos, me deixe de consciência tranquila, logo que exerça o meu direito/dever de voto… Alguns acorrerão gritando CDS, CDS! Se é certo que se tem portado com alguma dignidade, não consigo porém dissociá-lo da imagem que tenho na cabeça dum governo PSD/CDS…
O pormenor mais triste disto tudo é que, encontre ou não esse partido que procuro, vote ou não nesse ou num dos grandes, escreva ou não posts despropositados como este… o mais triste, dizia, é que vai ficar tudo na mesma e o futuro do país vai depender, tão só e apenas, da competência e da vontade dos homens que o palhaço vencedor, Zézito ou Pedrito, escolher para formar governo, de forma mais ou menos aleatória, com maior ou menor sorte…
Tudo na mesma… com ou sem abstenção…
Tudo na mesma… com ou sem manifestação…